Jovens e Apostas: Estatísticas e Prevenção em Portugal

Prevenção de apostas em menores e jovens em Portugal

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Pedro Hubert, psicólogo do Instituto de Apoio ao Jogador, disse-me uma vez algo que ficou gravado: “Quanto mais jovens, mais em risco estão. Um em cada cinco jovens de 18 anos faz apostas online. É um número preocupante.” Esta conversa aconteceu há anos, mas o problema não melhorou. Os dados mais recentes mostram que 16% dos adolescentes de 18 anos apostam online, e a tendência é de crescimento.

Durante o meu tempo no SRIJ, a protecção de menores era uma prioridade constante. Os operadores licenciados são obrigados a implementar verificações de idade, mas o mercado ilegal não tem estas restrições. E mesmo no mercado legal, a exposição precoce através de publicidade e redes sociais cria familiaridade com o jogo antes de ser legalmente permitido.

Neste guia, apresento os dados sobre jovens e apostas em Portugal, os riscos específicos desta faixa etária, e recursos disponíveis para prevenção e apoio. É informação importante para pais, educadores, e para os próprios jovens.

Dados em Portugal

Os números sobre jovens e jogo em Portugal vêm de várias fontes – ICAD, SRIJ, estudos europeus – e pintam um quadro consistentemente preocupante.

O estudo ESPAD de 2024 revelou que 64% dos estudantes portugueses de 15-16 anos apostaram a dinheiro em jogos desportivos no último ano. A média europeia é 55%. Portugal está significativamente acima, o que sugere factores culturais ou de exposição específicos.

O estudo ECATD de 2024 mostrou que 18% dos jovens entre 13 e 18 anos jogaram a dinheiro no último ano. São menores, tecnicamente impedidos de jogar, mas que encontram formas de acesso – através de contas de familiares, sites ilegais sem verificação, ou apostas informais.

No Dia da Defesa Nacional de 2024, que avalia jovens de 18 anos, 16% reportaram apostar online. Aos 13 anos, segundo dados do SICAD, 5% já jogam a dinheiro em plataformas online. A progressão entre os 13 e os 18 é acentuada.

Pedro Hubert observou esta evolução na sua prática clínica: “Tenho claramente essa perceção de mais menores a jogar. Cada vez mais chegam aqui jovens com 18, 19 ou 20 anos que não ficaram dependentes do jogo e apostas desportivas do dia para a noite. Começaram a jogar muito antes.”

Dos novos registos em plataformas de jogo online entre 2023 e 2024, 31% foram de utilizadores entre 18 e 24 anos. Este grupo etário está sobre-representado entre novos jogadores, confirmando que a entrada no jogo legal coincide frequentemente com a maioridade.

Riscos Específicos

Os jovens enfrentam riscos particulares relacionados com jogo que não afectam igualmente adultos mais velhos.

O cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, especialmente as áreas de controlo de impulsos e avaliação de risco. Esta imaturidade neurológica torna os jovens mais susceptíveis a comportamentos de risco e menos capazes de parar quando deveriam. O que para um adulto é uma decisão consciente de continuar, para um adolescente pode ser incapacidade genuína de travar.

A socialização do jogo entre pares amplifica o problema. Grupos de amigos partilham dicas, celebram ganhos, e normalizam a actividade. A pressão social para participar pode ser intensa. Recusar jogar pode significar exclusão social – um custo que adolescentes avaliam de forma diferente dos adultos.

A exposição digital constante facilita o acesso. Smartphones significam que o jogo está literalmente no bolso, disponível 24 horas. A fronteira entre jogar e não jogar esbateu-se. Um clique separa navegar redes sociais de fazer uma aposta.

Os influenciadores digitais amplificam a exposição. Muitos promovem sites de apostas – frequentemente ilegais – aos seus seguidores jovens. Os 42,1% que chegam ao jogo ilegal por recomendação de amigos e 36,8% pelas redes sociais reflectem esta dinâmica.

Consequências financeiras em jovens sem rendimentos próprios podem ser devastadoras. Endividamento com família, roubo para financiar jogo, ou trabalho precário para cobrir perdas são padrões que vejo repetidamente em casos problemáticos que começaram na adolescência.

Papel dos Pais

Os pais são a primeira linha de defesa, mas muitos não sabem por onde começar ou sequer que existe um problema.

A consciencialização é o primeiro passo. Muitos pais desconhecem a extensão do jogo entre jovens ou assumem que é um problema distante. Compreender que 16% dos jovens de 18 anos já apostam – e que muitos começaram antes – é essencial para tomar a questão a sério.

Conversas abertas sobre jogo, dinheiro, e risco são fundamentais. Não sermões, mas diálogos genuínos sobre porque o jogo pode ser problemático, como funciona a vantagem da casa, e porque ganhos ocasionais não significam que ganhar é fácil ou provável.

Monitorização digital responsável ajuda sem invadir completamente a privacidade. Conhecer que aplicações estão instaladas, verificar movimentos financeiros inusuais, e manter comunicação aberta sobre actividade online permite identificar problemas cedo.

O exemplo conta. Pais que apostam frequentemente em frente aos filhos, que celebram ganhos ruidosamente, ou que têm atitudes normalizadoras face ao jogo transmitem mensagens que depois são difíceis de contrariar.

Se identificares sinais de problema – secretismo sobre dinheiro, mudanças de humor relacionadas com resultados desportivos, pedidos de dinheiro invulgares – aborda directamente em vez de ignorar esperando que passe.

Recursos de Prevenção

Joana Teixeira, presidente do ICAD, reconheceu que “temos esta análise em curso. Temos previstas várias medidas que serão apresentadas em breve. Estamos em cima deste assunto, que é pertinente.” A prevenção está na agenda institucional, mas os recursos já disponíveis merecem divulgação.

O ICAD – Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências – é a entidade pública com responsabilidade nesta área. Oferece informação, encaminhamento para tratamento, e coordena políticas de prevenção. O contacto pode ser feito directamente ou através do sistema de saúde.

O Instituto de Apoio ao Jogador é uma entidade privada especializada em problemas de jogo. Oferece apoio psicológico, grupos de suporte, e orientação para famílias. Pedro Hubert notou que “em Portugal não sabemos quem são as pessoas que jogam. Das pessoas autoexcluídas, o SRIJ não diz quem são” – o que dificulta intervenções direccionadas mas não impede apoio individual.

Linhas de apoio e recursos online permitem contacto anónimo e imediato. Para jovens que preferem não falar com pais ou professores, estes canais podem ser o primeiro passo para procurar ajuda.

Programas escolares de prevenção existem mas são inconsistentes. A integração de literacia sobre jogo nos currículos poderia ajudar, tal como acontece com outras áreas de educação para a saúde.

Legislação e Protecção

A legislação portuguesa proíbe o jogo a menores de 18 anos. Os operadores licenciados pelo SRIJ são obrigados a verificar idade através de documentos de identificação antes de permitir apostas reais.

A verificação nos 18 operadores autorizados é rigorosa. Não consegues criar conta funcional sem submeter documentos que provem a idade. Esta barreira funciona para o mercado legal.

O problema está no mercado ilegal. Sites sem licença frequentemente não verificam idade ou têm verificações facilmente contornáveis. É aqui que menores conseguem aceder – e é por isso que o combate ao jogo ilegal é também uma questão de protecção de menores.

A publicidade de jogo tem restrições, mas a aplicação é imperfeita. Influenciadores que promovem sites ilegais não estão sujeitos à regulação tradicional de publicidade. As plataformas de redes sociais têm as suas próprias regras, nem sempre eficazmente aplicadas.

O reforço da fiscalização, a responsabilização de plataformas digitais, e melhores mecanismos de detecção de menores são áreas onde mais pode ser feito. A protecção dos jovens depende de um ecossistema regulatório que funcione como um todo.

Perguntas sobre Jovens e Apostas

É legal um menor apostar online em Portugal?
Não. O jogo online é proibido a menores de 18 anos. Os operadores licenciados verificam idade obrigatoriamente. Menores que conseguem jogar fazem-no através de sites ilegais sem verificação ou usando contas de terceiros, ambas as situações problemáticas.
Como os operadores verificam a idade dos jogadores?
Os operadores licenciados exigem documentos de identificação – cartão de cidadão ou passaporte – antes de permitir apostas reais. A verificação é feita durante o registo ou antes do primeiro levantamento. Sem documentos válidos, não é possível usar a conta.
Onde procurar ajuda se um jovem tiver problemas com jogo?
O ICAD é a entidade pública responsável. O Instituto de Apoio ao Jogador oferece apoio especializado. Ambos aceitam contacto directo. Médicos de família e psicólogos escolares podem também encaminhar para os recursos apropriados.